A Psicologia Organizacional e do Trabalho nas Organizações e suas implicações com a saúde mental
- Origem Sustentável

- 15 de jun.
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As discussões sobre psicologia iniciaram em território nacional na Faculdade de Medicina na Bahia, aparecendo primeiramente nas teses de doutoramento. A Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT), como é nomeada atualmente, chega no Brasil através da psicometria. Durante o processo de industrialização do país, a psicologia aplicada ao trabalho, fundamentada no uso de testes psicotécnicos, respaldava a necessidade do empregador de avaliar os trabalhadores para a inserção no mercado laboral. Na era do governo Getúlio Vargas, os testes assumiram papel primordial no território brasileiro, sendo empregados tanto para a seleção de pessoal, quanto para matrículas em cursos técnicos (Muniz, De Carvalho Castro, 2008).
Nesse período a psicologia corroborava com as organizações em uma perspectiva muito restrita, era uma psicologia de “portaria” centrada no recrutamento e seleção de pessoal. Com o passar dos anos o escopo da psicologia foi ampliado, surge o desafio de pensar no sujeito trabalhador nas organizações após o processo de recrutamento e seleção, no âmbito das atividades laborais.
Desse modo, admite-se que a posição do trabalho é central na vida dos sujeitos (Cardoso, 2011). É o trabalho que na produção de novas perspectivas instaura o movimento necessário para o desenvolvimento contínuo da sociedade (Gonçalves e Jimenez, 2013). Entre tantas conceitualizações possíveis, na esfera social, o trabalho se apresenta como uma manifestação multifacetada, podendo ser considerado apenas como a negação do ócio (Cabral, Ribeiro e Santos, 2017).
Considerando essa perspectiva, o atual contexto do mundo laboral tem apresentado mudanças profundas, oriundas do avanço tecnológico, que promovem reconfigurações e produções de novas categorias profissionais, bem como exigências diversas. Tais modificações geram desafios tão sofisticados que necessitam de elaboração de ajustes e construção de soluções para os ambientes laborais (CFP, 2024).
A POT é uma subárea da psicologia, reconhecida oficialmente pelo Conselho Federal de Psicologia. Conforme a Resolução CFP no 23/2022, a POT tem como objetivo atuar de forma preventiva, fazendo a gestão dos ambientes organizacionais no que se refere a identificar os riscos psicossociais antecipadamente, para promover saúde e bem-estar nas organizações (CPF, 2024).
A POT constituiu-se como um escopo complexo e necessário da psicologia, situado em três especificações que objetivam o desenvolvimento humano e a promoção de saúde do trabalhador: A Gestão de Pessoas, Psicologia Organizacional e Psicologia do Trabalho. Na Gestão de Pessoas, o foco é a relação entre organização e trabalhador, nesse escopo consta o recrutamento e seleção, a inserção do sujeito no âmbito do trabalho, treinamentos entre outras atividades. Ajustando assim as metas da organização às possibilidades e necessidade dos trabalhadores. Na psicologia organizacional o principal enfoque é o trabalho com os grupos internos da organização. Dessa forma, o psicólogo organizacional trabalha com a gestão da mudança, planejamento estratégico, entre outras possibilidades do contexto organizacional que gera impacto nas relações no interior da organização. A psicologia do trabalho tem sua ênfase centrada nas condições laborais e no impacto ou riscos psicossociais que essas condições podem fomentar (CFP, 2024).
Contudo, psicólogos organizacionais podem trabalhar em atuação conjunta com administradores, sociólogos, assistentes sociais, antropólogos, gerente de recursos humanos e outras áreas. Embora existam atividades privativas do psicólogo organizacional, como a avaliação psicológica, o trabalho multidisciplinar torna as possibilidades de análise e intervenções extremamente ricas (CFP, 2024).
Sabe-se que as organizações constituem arranjos de natureza social estruturadas com a finalidade de atingir determinados objetivos ou metas consideradas específicas e particulares a cada uma delas. Nesse sentido, Figaro (2008), salienta que o mundo do trabalho promove encontros que sustentam relação através das atividades que precisam ser desenvolvidas. Desse modo, existem interações que são oriundas das atividades laborais, bem como conflitos que se estabelecem no âmbito do trabalho gerados por essa convivência. Corroborando com essa perspectiva a POT indica que o trabalho corresponde a uma atividade humana que está imersa em relações sociais e sustentam uma forma de exercer uma identidade no mundo, que dá sentido à vida e proporciona realização para os sujeitos (CFP, 2024).
Por isso, o mundo do trabalho transcende as organizações, uma vez que é constituído de relações, cultura, conhecimentos, processos de comunicação, atividades e sentidos que estão intimamente ligados a vida do sujeito, para além das instituições em que os trabalhadores estão inseridos. Nesse mundo circulam discursos plurais de sujeitos diversos, com valores e ideologias distintas e convivem de forma a gerar conflitos (CFP, 2024).
Os desafios que surgem devido as atividades laborais podem gerar aspectos negativos na saúde física e mental dos trabalhadores. Segundo a Agência Europeia de Segurança e Saúde do Trabalhador (EU-OSHA), os riscos psicossociais decorrem de consequências das limitações e falhas na concepção do trabalho. O ambiente de trabalho desfavorável, com falta de autonomia e desafios não solucionáveis que os trabalhadores enfrentam, superam a capacidade de desfecho favorável. O adoecimento do trabalhador é resultado de um trabalho problemático que possuí cargas excessivas de trabalho, exigências equivocadas, sem definição das funções, falta de apoio, ausência de controle do trabalho realizado, precariedade laboral, comunicação ineficaz, além de clientes, pacientes e público em geral difícil de lidar (EU-OSHA, 2025).
No Brasil, o elevado índice de afastamento do trabalho em decorrência de problemas de saúde mental tem preocupado e incentivado a formulação de políticas que atuem nesse contexto. Essa realidade é um desafio também para as organizações, pois os efeitos negativos na saúde do trabalhador implicam no desenvolvimento das atividades laborais e nos resultados organizacionais (Ministério da Previdência Social, 2024).
O ano de 2024 apresentou mais de 440 mil afastamentos por saúde mental, segundo os dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Esses dados denunciam a urgência do trabalho preventivo na perspectiva que exista uma sincronia entre a necessidade do trabalhador e a atuação empresarial (Meneses, 2025).
Por isso, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), por meio da Portaria MTE nº 1.419/2024, se concretiza como um eixo importantíssimo do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Essa renovação exige conformidade documental e aponta para a necessidade de diagnósticos, treinamentos de lideranças, canais de escuta e cuidado, objetivando alinhar a conduta organizacional às demandas dos trabalhadores atuais (Figaro, 2008).
A sociedade está em constante movimento, atravessada por mudanças de diversas origens que geram impacto na vida social. São avanços tecnológicos, modificações na economia mundial e globalização. Essas alterações constantes modificam os processos de trabalho e a forma dos sujeitos se relacionarem, além das alterações nos próprios ambientes laborais. A partir dessa nova realidade outras maneiras de vivenciar o mundo do trabalho surgem, exigindo novas adequações de lidar com o trabalhador e a possibilidade de sofrimento. Em território nacional as causas de impedimento de exercer o trabalho corroboram com o cenário internacional (Silva, 2022).
Essa perspectiva aponta para uma grande mudança no mundo do trabalho que traz benefícios para a classe trabalhadora, que ganha na saúde e na execução de um trabalho permeado por sentido. Da mesma forma, contempla o empresariado que lidera uma equipe saudável e motivada. Por fim, também auxilia na diminuição das demandas dos programas de proteção social do governo que deixam de estar sobrecarregados com o afastamento por causa do sofrimento laboral. Ou seja, sociedade e o empregador ganham em movimento, dinamismo e produção, quando o trabalho está alinhado as práticas de promoção de saúde mental.

Alexandra Machado
Mestre em Psicologia Social, com Especialização em Neurociência do Desenvolvimento Humano | Supervisora no Núcleo de Estudos de Gênero, Relações Étnico Raciais, Direitos Humanos e Juventude na Faculdade IENH




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