• Pedro Horta

Transformando a linha em círculo

Desde o século XVIII, já está comprovado que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, mas levamos tempo demais para entender que nós também temos que nos adaptar à essa lei. Durante séculos, vimos a natureza como fonte inesgotável de recursos, fossem eles para insumo ou para tratar nossos rejeitos. Porém, nas últimas décadas caiu a ficha de que, ou damos a nossa contribuição à Lei de Lavoisier, ou a transformação na forma de vida presente na Terra, que já está em curso, também nos afetará.


Após a Revolução Industrial, o ritmo de produção e consumo mundiais aceleraram. Consequentemente o respectivo impacto ambiental também. No entanto, o primeiro esforço da alta cúpula global em busca de um equilíbrio entre o desenvolvimento industrial/econômico e meio ambiente aconteceu apenas em 1972, na Conferência de Estocolmo, da ONU. Desde então outras convenções aconteceram e esse desafio ainda está longe de ser atingido. Porém, diversos estudos já demonstraram que a atividade humana está alterando o equilíbrio natural do planeta e que as consequências são irreversíveis. Sendo assim, não resta alternativa senão repensar todo nosso modelo econômico baseado em um sistema de produção linear, com extração de recursos e descarte de resíduos na natureza.


Transformar uma linha em círculo vai muito além de conectar o primeiro ao último

ponto. É preciso repensar cada um dos pontos de forma que se construa uma circunferência que faça com que o último se conecte ao primeiro de forma natural. Da mesma forma acontece na tentativa de se montar modelos de negócios circulares. Não basta partir do resíduo e tentar transformá-lo em matéria-prima, é preciso repensar o design do produto, as matérias-primas utilizadas, as formas de beneficiá-las e o seu uso para garantir que todos componentes possam ser separados e destinados integralmente, como novos materiais.


A reciclagem e a decomposição natural também são ciclos, entretanto altamente demandantes de recursos naturais (energia, água e intemperismo, por exemplo) e muitas vezes de forma insatisfatória. Seja pelo tempo e eficiência do processo ou pela qualidade da nova matéria-prima gerada. Por exemplo, sapatos feitos com sola construída por intrusão não são 100% recicláveis, mesmo que o material do solado e do cabedal sejam. Isso porque ao usar esse método de construção do calçado torna-se impossível separar as duas partes completamente. Produtos que utilizam cola também comprometem parte do material ou geram resíduos de cola e solvente que terão que ser descartados. Produtos desenvolvidos levando em consideração o seu descarte pós-consumo e a circularidade

devem ter componentes facilmente separáveis e feitos de matérias-primas biodegradáveis, recicláveis e/ou reaproveitáveis.


Se a capacidade de se reinventar da natureza surpreendeu Lavoisier há quase 300 anos, agora serve de inspiração para mudarmos a economia em busca de produtos com ciclo de vida sem início ou fim, assim como um círculo.



Pedro Horta

Coordenador de Sustentabilidade do Grupo Soma


Conteúdos Programa Origem Sustentável | Gestão Da Sustentabilidade | Brasil

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