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Práticas sustentáveis avançam na indústria calçadista

  • Foto do escritor: Origem Sustentável
    Origem Sustentável
  • 30 de jul.
  • 8 min de leitura

A indústria calçadista brasileira, a maior do Ocidente (produção de 847 milhões de pares em 2025), vem avançando também nas práticas alinhadas aos conceitos de ESG (Environmental, Social, and Governance). Dados elaborados pela Abicalçados, e que constam no Relatório Indústria de Calçados - Brasil 2026, corroboram o avanço.


O gerente de Marketing e Estratégia da Abicalçados, Cristian Schlindwein, destaca que a indústria calçadista brasileira é a mais “sustentável do mundo”. Segundo ele, entre os países produtores de calçados, o Brasil é o que tem os melhores indicadores de sustentabilidade, em especial quando comparado com os asiáticos. Os países asiáticos produtores de calçados possuem baixo nível de ratificação de padrões internacionais de trabalho estabelecidos nas Convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT), diferente do brasileiro. Os três principais exportadores mundiais - China, Vietnã e Indonésia - ratificaram, em média, 25 convenções da OIT - tratados internacionais que definem padrões e pisos mínimos a serem observados e cumpridos por todos os países que os ratificam - ao passo em que o Brasil ratificou 98 convenções. Já na agenda ambiental, o Brasil também apresenta vantagens comparativas relevantes. Para fins de exemplificação, a emissão de CO2 no Brasil é de 2,3 toneladas per capita, ao ano, menos da metade da média mundial, ao passo que na China, a emissão de CO2 é de 9,3 toneladas per capita. No Vietnã, a emissão é de 4,3 toneladas per capita. Na geração de energia elétrica, 77% da produção brasileira é gerada em fontes renováveis, já na China, a participação de fontes renováveis na geração de eletricidade é de apenas 28% (World Bank).


Esforços

O gerente explica que os avanços do setor não são recentes e cita o papel do Origem Sustentável, único programa de certificação de práticas ESG voltado exclusivamente para empresas da cadeia produtiva do calçado no mundo, criado em 2013. “O Origem Sustentável, mais do que certificar empresas, funciona como um guia para o avanço das práticas dentro delas”, explica Schlindwein. Atualmente, 45% da produção nacional de calçados já é certificada pelo Programa, número que vem avançando.


Ambiental

O estudo da Abicalçados cita, por exemplo, que 93% das empresas participantes descartam resíduos sólidos industriais em aterros sanitários, adotando outras destinações finais ambientalmente adequadas, como reutilização, reciclagem, coprocessamento e/ou outras tecnologias. “A participação de empresas que realizam a destinação ambientalmente adequada dos resíduos é a maior entre os indicadores da dimensão ambiental, possivelmente por se tratar de uma das primeiras iniciativas a ser trabalhada no âmbito das práticas sustentáveis”, comenta Schlindwein, ressaltando que, nos últimos cinco anos, o percentual de empresas que realizam a destinação ambientalmente adequada dos resíduos sólidos industriais aumentou seis pontos percentuais.


Ainda no pilar ambiental, conforme o Relatório, no ano passado 82% das empresas consumiram energia elétrica 100% oriunda de fontes renováveis (Ambiente de Contratação Livre ou autogeração). A participação de empresas que utilizam energia de fontes renováveis foi o indicador que mais avançou desde o início dos levantamentos (2021): 35 pontos percentuais.


Alinhamento com fornecedores

No âmbito da cadeia produtiva, 74% das empresas calçadistas declararam que realizam verificação periódica de seus fornecedores quanto à conformidade legal, ambiental e social, 3% mais do que em 2024 e 17% mais do que em 2021. Complementarmente, 70% das empresas executam programas de controle das substâncias restritas presentes em produtos, exigindo de seus fornecedores a realização de testes nas matérias-primas e insumos para atender aos limites de substâncias definidos em protocolos como REACH, legislação obrigatória para entrada de produtos na Europa.


Social

No pilar social, 75% das empresas possuíam, em 2025, práticas visando promover a diversidade e inclusão em suas equipes. A participação foi crescente em sete pontos percentuais em relação a 2024. Entre as práticas mais realizadas, estão o recrutamento inclusivo (67%); treinamentos regulares de sensibilização sobre diversidade, equidade e inclusão para funcionários em todos os níveis da organização (49%); e comunicação transparente (49%).


Governança

Já no pilar de governança, a pesquisa identificou que, em 2025, 82% das empresas possuíam práticas de melhoria da governança, a maior participação registrada nos últimos três anos. Entre as práticas mais realizadas pelas empresas, destacam-se as auditorias internas e externas (75%); o estabelecimento de código de conduta e ética (72%); e a transparência e comunicação por meio de relatórios regulares sobre o desempenho financeiro, metas, riscos e práticas de sustentabilidade da empresa (50%).


O Relatório Indústria de Calçados - Brasil 2026 completo pode ser acessado gratuitamente. Além dos dados de ESG no setor, a publicação traz dados gerais da indústria calçadista brasileira e projeções para curto e médio prazos.


Tess: reciclagem que gera economia

A Tess, fabricante das marcas Kenner, Redley e Cantão com unidade produtiva em Campina Grande/PB, é um caso de sucesso quando o assunto são práticas ESG. Com uma produção que varia entre 20 mil e 30 mil pares diários - efeito sazonal -, a empresa trabalha em consonância com os preceitos de sustentabilidade em todos os seus pilares.


Recertificada no nível máximo do Origem Sustentável, o Diamante, a empresa vem aumentando sua pontuação dentro do Programa. Segundo o gerente Corporativo de Saúde, Segurança do Trabalho e Meio Ambiente, Cleber Antonio Valvassori Pechina, o grupo saiu de uma pontuação de 549 pontos (2023) para 581 pontos (2025). “Em comparação com o ciclo anterior o nosso crescimento se deu na gestão da sustentabilidade ESG e na dimensão social”, conta.



Entre seus destaques, a Tess reaproveita quantidade relevante dos resíduos gerados. Parte deles passa por um processo de reincorporação interna, voltando para a produção de novas placas de EVA e solados de borracha, enquanto outra parte segue para reciclagem externa, movendo economicamente a cadeia social de reciclagem. “Internamente temos uma média de reincorporação de 42% (EVA e borracha) e 17% na reciclagem externa dos mesmos itens em relação ao total gerado. Por fim, o que sobra sem potencial de reciclagem ou reincorporação, segue para coprocessamento, evitando um passivo ambiental em lixões”, explica Pechina.


Conforme Pechina, apenas com a reciclagem de materiais é gerada uma economia mensal de R$ 250 mil, R$ 3 milhões por ano. “Nosso indicador atual de geração final de resíduos tem uma meta de 0,090Kg por par produzido. Este tem sido o melhor resultado dos últimos cinco anos, quando já reduzimos 100% comparado àquele cenário”, comemora.


A materialização desse potencial de reciclagem acontece na linha RE.USE, da marca de sandálias Kenner, sucesso comercial da Tess. “A reutilização do EVA e da borracha no processo produtivo é uma realidade comum para nós. Fato disso é que a linha RE.USE nasceu com o propósito de ilustrar e fomentar justamente essa prática. Atualmente a reutilização de borracha pode variar entre 10% ou 20% para cores monocromáticas”, informa o gerente.


Grupo Dass: gigante e sustentável

Um dos maiores produtores de calçados do Brasil, o Grupo Dass é outro exemplo de sustentabilidade. A estrutura operacional do grupo é composta por 13 unidades fabris, quatro unidades verticais e dois escritórios comerciais localizados no Brasil e na Argentina, além de 45 lojas próprias, um complexo fabril que sustenta uma produção anual expressiva, que supera a marca de 19 milhões de pares de calçados e 18 milhões de peças de confecção produzidas e comercializadas ao ano.


Certificada no nível máximo do Origem Sustentável, o Diamante, atualmente a companhia se posiciona como uma robusta plataforma industrial e comercial no setor esportivo, contando com uma força de trabalho de mais de 26 mil colaboradores. A coordenadora de ESG do Grupo, Jenifer Adrian da Silva Martim, destaca que a sustentabilidade está intrinsecamente integrada à estratégia do negócio, orientando decisões centrais para equilibrar os pilares econômico, social e ambiental.


Segundo Jenifer, a empresa tem registrado ganhos essenciais por meio de projetos como o aproveitamento de águas pluviais e a recirculação de efluentes tratados em Estações de Tratamento (ETEs) para usos industriais, sanitários e de jardinagem. No campo da economia circular, iniciativas como a transformação de resíduos têxteis em palmilhas internas para calçados geraram valor interno e reduziram os custos de destinação final. “Além disso, ações de conscientização e capacitação sobre a segregação na origem - como o projeto expandido na unidade de Santo Antônio de Jesus/BA - resultaram em um incremento de 6% a 8% no índice de reciclagem local”, conta.


O compromisso do Grupo Dass com a mitigação dos impactos climáticos reflete-se em avanços expressivos na gestão de sua matriz energética. Atualmente, a organização opera com 100% de energia elétrica proveniente de fontes renováveis adquiridas via Mercado Livre em todas as áreas industriais de suas unidades brasileiras. Essa transição estratégica para fontes limpas, somada à diminuição do fator de emissão da matriz elétrica nacional, gerou um impacto direto e positivo no inventário de emissões da companhia: em 2025, o Grupo registrou uma redução expressiva de 81% nas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) no Escopo 2, associadas ao consumo de energia, quando comparado ao ano anterior.


O pilar social do Grupo Dass consolidou avanços significativos em 2025, impulsionado por investimentos contínuos em educação corporativa e no fortalecimento da cultura de aprendizado. Por meio da plataforma digital Educa Dass, a companhia centralizou trilhas de capacitação que registraram mais de 205 mil acessos no ano. Essa mobilização resultou na emissão de mais de 30 mil certificados e em uma média expressiva de 20,4 horas de treinamento por colaborador, evidenciando o foco no autodesenvolvimento e na qualificação das equipes. Além do público interno, a responsabilidade social do grupo estendeu-se de forma descentralizada para o desenvolvimento das comunidades onde atua. Em 2025, o comitê interno gerenciou o aporte de mais de R$ 620 mil em 22 projetos sociais por meio de leis de incentivo fiscal.


Via Marte: pilar social é destaque

Certificada no nível Ouro do Origem Sustentável, a Via Marte tem como destaque o pilar social. Com três fábricas no Brasil, que produzem anualmente mais de 6 milhões de pares, a empresa tem nas práticas ESG um pilar estratégico.


Nos últimos anos, a Via Marte vem ampliando suas iniciativas voltadas à sustentabilidade, com avanços expressivos nos pilares social e ambiental. Na área ambiental, por exemplo, a empresa realizou seu primeiro Inventário de Gases de Efeito Estufa em 2023, passou a utilizar energia elétrica proveniente de fontes 100% renováveis e reduziu em 7% o consumo de energia. Também intensificou as ações de gestão de resíduos, o controle do consumo de água, a rastreabilidade dos produtos por meio da serialização da produção e o monitoramento das emissões e dos indicadores ambientais.


No pilar social, a empresa investe continuamente na saúde, segurança e desenvolvimento de seus colaboradores. Entre as principais iniciativas estão a manutenção de um sistema de gestão de saúde e segurança que abrange 100% dos empregados e prestadores de serviço, a realização de mais de 2 mil horas de capacitação nos últimos anos, programas de formação profissional em parceria com o SENAI, incentivo à qualificação técnica e acadêmica, além de programas de inclusão de pessoas com deficiência e ações voltadas à diversidade. A atuação social também se estende à comunidade, por meio de campanhas de doação de sangue, campanha do agasalho, apoio a hospitais, entidades beneficentes, eventos culturais e iniciativas esportivas da região.


Segundo o representante do Comitê de Sustentabilidade da Via Marte, Jardel Dettenborn, além de gerar impactos positivos para a sociedade e o meio ambiente, essas iniciativas também resultam em ganhos operacionais. “No mercado, esse posicionamento fortalece a imagem institucional da Via Marte, agregando valor à marca e ampliando a confiança de clientes, parceiros e demais stakeholders. Em um cenário em que consumidores estão cada vez mais atentos às práticas socioambientais das empresas, investir em ESG representa não apenas uma responsabilidade corporativa, mas também um importante diferencial competitivo”, comenta.


A Via Marte mantém uma série de projetos ESG em andamento, voltados principalmente à economia circular, ao uso eficiente dos recursos naturais e à redução dos impactos ambientais de suas operações. Entre as iniciativas de maior destaque está o reaproveitamento das aparas de material sintético geradas durante o processo produtivo, que passam a ser utilizadas na fabricação de palmilhas. O projeto reduz a geração de resíduos industriais, diminui o consumo de matéria-prima virgem e fortalece o conceito de economia circular dentro da empresa. Outra iniciativa em desenvolvimento é a implantação de cisternas para captação e armazenamento de água da chuva, permitindo sua utilização em atividades que não exigem água potável, como limpeza de áreas externas e serviços de apoio.


Sobre o Origem Sustentável

Criado pela Abicalçados em parceria com a Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), em 2013, o Origem Sustentável, além de certificar a produção sustentável, funciona como um guia de práticas ESG para empresas e todos os portes e maturidades.


Baseado nas melhores práticas internacionais de sustentabilidade, o Programa segue a diretriz de 104 indicadores distribuídos em cinco dimensões: econômica, ambiental, social, cultural e gestão da sustentabilidade.


O Origem Sustentável conta com quatro níveis de certificação: Diamante (+80% dos indicadores alcançados); Ouro (+60%); Prata (+40%) e Bronze (+20%). As auditorias são realizadas por órgãos independentes como SENAI, SGS, ABNT, Intertek e Bureau Veritas.

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