ESG não tem dono? Porque a sustentabilidade precisa fazer parte da cultura da empresa

O elo entre Governança, Pessoas e Resultados: propósito que orienta decisões e transforma organizações.
Com mais de 20 anos de experiência no setor calçadista, construí minha trajetória profissional integrando sustentabilidade, gestão e resultados à realidade das organizações. Essa experiência reforçou uma convicção: o ESG não se consolida apenas com estratégias bem definidas, mas quando passa a fazer parte da cultura e das decisões cotidianas da empresa.
Afinal, de quem é a responsabilidade pelo ESG dentro de uma organização?
É comum que, ao falar em sustentabilidade, a responsabilidade seja direcionada à área de ESG ou Meio Ambiente. Essas áreas desempenham um papel fundamental na estruturação de estratégias, na definição de indicadores e na coordenação de iniciativas. Mas será que conseguem, sozinhas, transformar a maneira como toda a organização pensa, decide e opera?
A efetividade do ESG depende de uma conexão essencial entre governança, liderança, pessoas e resultados.
Governança: o propósito precisa orientar as decisões
O compromisso com a sustentabilidade começa na estratégia e precisa encontrar respaldo na governança e na alta liderança. É nesse nível que se definem prioridades, direcionam-se recursos, estabelecem-se responsabilidades e se demonstra, pelas decisões tomadas, o que realmente importa para o negócio.
A liderança tem o papel de traduzir essas diretrizes em direcionamento, mobilizar pessoas e estimular o envolvimento das diferentes áreas. Quando existe coerência entre o discurso e as decisões, os compromissos ESG ganham legitimidade e passam a orientar a atuação da organização.
Sem essa conexão, há o risco de a sustentabilidade permanecer restrita a documentos, relatórios e iniciativas pontuais.
Cultura: ESG incorporado à forma de atuar
A cultura organizacional é o que permite transformar o direcionamento estratégico em uma maneira consistente de trabalhar, tomar decisões e se relacionar. É quando os princípios ESG deixam de ser apenas diretrizes institucionais e passam a orientar comportamentos, prioridades e práticas cotidianas.
Esse processo exige mais do que comunicar valores ou promover ações pontuais de conscientização. O aculturamento acontece gradualmente, por meio do exemplo das lideranças, da comunicação contínua, da capacitação e do envolvimento das pessoas. É fundamental que cada profissional compreenda não apenas o que a organização pretende alcançar, mas também como suas próprias decisões e atividades contribuem para esse propósito.
A liderança tem um papel determinante nesse processo. Suas atitudes, escolhas e prioridades sinalizam o que realmente é valorizado pela organização. Quando existe coerência entre o discurso e a prática, cria-se um ambiente mais favorável ao engajamento e à incorporação dos compromissos ESG à rotina de trabalho.
Também é necessário reconhecer que a transformação cultural não acontece de maneira uniforme nem imediata. Ela requer continuidade, diálogo, responsabilidades claras e condições para que as pessoas participem e contribuam com melhorias. Afinal, não basta esperar que os colaboradores incorporem uma nova forma de atuar se os processos, os incentivos e as decisões da própria organização continuam apontando em outra direção.
Aculturar em ESG é transformar propósito em comportamento e compromisso em prática. É fazer com que a sustentabilidade deixe de depender de iniciativas isoladas e passe a integrar a maneira como a organização trabalha, decide e constrói seus resultados.
Resultados: o ESG acontece na conexão entre as áreas
Na indústria, essa interdependência fica evidente. Uma decisão de Compras pode influenciar os critérios socioambientais da cadeia de fornecimento. Na Produção, escolhas relacionadas aos processos e ao uso de recursos podem afetar perdas, custos e eficiência operacional. Pessoas, Financeiro, Logística e demais áreas também influenciam os resultados ambientais, sociais e econômicos.
Mas essa responsabilidade não se limita às fronteiras da organização. Fornecedores, clientes, parceiros de negócios, comunidades e outros stakeholders externos também fazem parte dessa dinâmica. Suas expectativas, decisões e formas de atuação podem influenciar riscos, oportunidades e a capacidade da empresa de avançar em seus compromissos ESG.
Por isso, a sustentabilidade exige uma visão integrada, que considere tanto os processos internos quanto as relações externas. Cabe à liderança estimular essa integração, enquanto a governança estabelece diretrizes e responsabilidades que favoreçam a atuação conjunta. Metas compartilhadas, indicadores, diálogo com os públicos de interesse e acompanhamento sistemático ajudam a transformar compromissos em práticas e a identificar oportunidades de melhoria.
Quando essa conexão acontece, o ESG deixa de ser uma pauta isolada e passa a contribuir para relações mais consistentes, gestão de riscos, eficiência operacional e geração de valor para o negócio e para a sociedade.
O ESG tem responsáveis, mas não pode ter fronteiras
Uma área especializada pode estruturar, coordenar e impulsionar a agenda ESG. Entretanto, sua efetividade depende do compromisso da liderança e da participação das diferentes áreas da organização.
O desafio não é apenas implementar iniciativas de sustentabilidade, mas criar as condições para que elas sejam incorporadas à maneira como a empresa trabalha, estabelece prioridades e avalia seus resultados.
É nesse ponto que Governança, Pessoas e Resultados se conectam: a governança orienta as decisões, a liderança mobiliza as pessoas, a cultura incorpora o ESG à forma de atuar e os resultados permitem avaliar a efetividade das escolhas realizadas.
Mais do que definir quem é o dono do ESG, precisamos compreender quem tem responsabilidade sobre as decisões que moldam o futuro da organização.
A sustentabilidade se torna parte da cultura quando deixa de ser uma pauta isolada e passa a orientar a forma como todos contribuem para o negócio.

Morgana Marca
Consultora Especialista em Sustentabilidade, ESG e Gestão Ambiental na Salt Assessoria




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