Como traduzir a Sustentabilidade a ESG para engajar da diretoria ao chão de fábrica
- Origem Sustentável

- há 4 dias
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No cenário corporativo atual, existe um fenômeno curioso e perigoso: o "ruído de comunicação" em torno da sustentabilidade. Você já notou como o clima em uma reunião de diretoria pode mudar ao mencionarmos a sigla ESG? Ou como, muitas vezes, as equipes de operação parecem distantes e apáticas ao tema?
O problema não é a pauta em si — que nunca foi tão vital para a sobrevivência das empresas — mas sim a forma como ela está sendo comunicada. O mercado está exausto de termos que soam ideológicos ou abstratos. Para que a sustentabilidade gere valor real, precisamos de uma tradução estratégica para a gestão e um pertencimento prático para os colaboradores.
O Destino e o GPS: Diferenciando Sustentabilidade de ESG
Antes de avançar, precisamos eliminar um obstáculo comum: o uso desses termos como sinônimos. Se você não sabe a diferença, não sabe o que está medindo nem para onde está indo. Eles estão ligados, mas representam papéis distintos:
Sustentabilidade (O "Quê" e a Filosofia): É o destino. É a visão de um desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer o futuro. Baseia-se no Triple Bottom Line (Ambiental, Social e Econômico). É o legado que a empresa deseja deixar.
ESG (O "Como" e a Metodologia): É o painel de controle. O termo nasceu no mercado financeiro para transformar a filosofia em dados mensuráveis. O ESG é a ferramenta que analisa riscos e oportunidades não financeiros, garantindo que a sustentabilidade não seja apenas uma "boa intenção", mas uma estratégia com métricas, governança e lucro de longo prazo.
Sem a filosofia da Sustentabilidade, o ESG vira um relatório vazio. Sem o ESG, a Sustentabilidade vira um ideal sem impacto prático.
Do ativismo à eficiência: Falando a língua dos Negócios
Para que a sustentabilidade seja abraçada pelo C-Level (CEOs, CFOs e COOs), ela precisa deixar de ser vista como um apêndice ético e passar a ser entendida como o núcleo da estratégia competitiva. Precisamos falar a língua dos negócios. Ao atualizar nossa nomenclatura, não estamos diminuindo a causa; estamos aumentando a adesão, a viabilidade financeira e a execução real.
Quando substituímos termos genéricos por conceitos focados em resultados, a percepção de valor muda radicalmente. Essa tradução deve permear todos os pilares:
No Ambiental: O foco sai do ativismo e entra na resiliência. Em vez de falarmos apenas em "Mudanças Climáticas", falamos em Gestão de Infraestrutura e Continuidade de Negócio. A "Economia Circular" ganha força quando apresentada como Otimização de Recursos e Custos — menos desperdício é igual a mais margem.
No Social: O assistencialismo dá lugar à co-criação e performance. A "Equidade de Gênero" e a "Diversidade" traduzem-se em Inteligência Coletiva, impulsionando a inovação. O "Bem-estar" deixa de ser um benefício passivo e torna-se o motor da retenção de talentos e produtividade.
Na Governança: A burocracia transforma-se em transparência. A "Governança ESG" nada mais é do que Gestão de Riscos e Compliance, fundamental para a segurança jurídica e a confiança de investidores.
Ao adotar essa perspectiva, transformamos o que muitos percebem como um "custo" em um diferencial competitivo tangível.
O "Elefante na Sala": O gargalo do letramento e pertencimento
De nada adianta a diretoria aprovar planos robustos de descarbonização se quem executa o dia a dia não compreende o propósito dessas ações. Identifiquei em consultorias um cenário alarmante: em muitas organizações, mais de 95% dos colaboradores não sabem o significado da sigla ESG ou como ela se aplica à sua rotina.
Muitas empresas investem milhões em tecnologias verdes, mas ignoram o pilar fundamental: as pessoas. Não se muda uma cultura organizacional por decreto. Se o colaborador entende o ESG apenas como uma regra burocrática, a estratégia vira um "check-list" sem alma.
O verdadeiro letramento não é decorar siglas, é gerar sentido. Quando o operador do chão de fábrica percebe que a redução de resíduos que ele sugeriu na sua máquina é, na prática, o pilar ambiental do ESG, a distância acaba. O letramento eficaz faz o colaborador olhar para o lado e dizer: "Eu faço parte disso; meu trabalho garante o futuro do planeta e a sustentabilidade do meu próprio emprego".
Para que o ESG entre no DNA da empresa, cada profissional deve ser capaz de responder:
1. O que é este movimento na prática da minha função?
2. Por que ele é prioridade para a nossa sobrevivência hoje?
3. Como eu sou co-autor dos resultados que a empresa busca?
Sustentabilidade é Co-autoria e Execução
A sustentabilidade real acontece na intersecção entre a visão estratégica da diretoria e a inteligência prática do chão de fábrica. É sobre integrar uma visão de longo prazo que valoriza a saúde financeira e identifica o que é prioritário para o negócio e para as pessoas.
O ESG sem letramento é apenas uma sopa de letrinhas. Com participação ativa, ele se torna o sistema operacional da empresa. Se a sua organização busca sair do papel e entrar na era da performance sustentável, o caminho começa pelo conhecimento compartilhado.
Afinal, no mercado moderno, a melhor estratégia de gestão é aquela que todos compreendem, valorizam e ajudam a construir.

Daiana Schwengber
Bióloga, doutora em Memória Social e Bens Culturais e fundadora da Apoena Socioambiental.




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