Sustentabilidade 360º Para as Organizações
- Origem Sustentável

- há 7 dias
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Durante muito tempo, a sustentabilidade foi tratada como um tema periférico nas
organizações. Um assunto “importante”, mas quase sempre empurrado para relatórios,
campanhas pontuais ou exigências regulatórias. Essa abordagem, além de limitada,
esvaziou o real potencial transformador da sustentabilidade. Hoje, não há mais espaço
para esse tipo de leitura. Sustentabilidade deixou de ser discurso e passou a ser
estratégia.
Ao longo da minha trajetória, tenho observado que as organizações mais preparadas
para enfrentar cenários de incerteza são justamente aquelas que compreenderam a
sustentabilidade como parte da lógica do negócio. Não se trata de fazer mais, mas de
fazer melhor: revisar processos, repensar decisões, qualificar relações e alinhar
propósito com desempenho. É a partir dessa vivência que construo a ideia de
Sustentabilidade 360°, uma abordagem que parte da integração e não da
fragmentação.
O erro mais comum ainda é tratar sustentabilidade como um conjunto de ações
isoladas. Planta-se uma árvore aqui, cria-se um projeto social ali, publica-se um código
de ética e acredita-se que o trabalho está feito. Na prática, iniciativas desconectadas
produzem pouco impacto e geram frustração. Sustentabilidade só se sustenta quando
atravessa toda a organização: do uso de recursos naturais à forma como as pessoas
são lideradas, do relacionamento com fornecedores à transparência nas decisões.
Quando olhamos para a dimensão ambiental sob essa perspectiva, ela deixa de ser
um “custo verde” e passa a ser sinônimo de eficiência. Redução de desperdícios, uso
racional de energia e revisão de modelos produtivos geram ganhos concretos e
mensuráveis. O mesmo ocorre na dimensão social. Empresas que investem em
relações justas, inclusão produtiva e fortalecimento dos territórios onde atuam
constroem algo que nenhum orçamento de marketing compra: confiança.
Mas nenhuma transformação acontece sem cultura. A sustentabilidade não avança em
organizações onde os valores não são vividos no cotidiano. Ela começa pela
liderança, mas só se consolida quando se torna prática compartilhada. Cultura
organizacional, nesse contexto, não é discurso inspirador na parede, é critério de
decisão. É o que orienta escolhas difíceis e define prioridades, especialmente em
momentos de pressão.
A governança entra como o fio condutor desse processo. Transparência, ética e
coerência deixaram de ser diferenciais para se tornarem requisitos básicos de
sobrevivência. Empresas que não conseguem explicar suas escolhas, seus impactos
ou seus compromissos tendem a perder legitimidade. E legitimidade, hoje, é um ativo
estratégico.
Ainda existe resistência à agenda ESG, muitas vezes alimentada por uma falsa
oposição entre sustentabilidade e rentabilidade. Essa narrativa ignora a realidade.
Sustentabilidade bem estruturada reduz riscos, amplia acesso a mercados, fortalece
reputação e prepara os negócios para mudanças regulatórias e de consumo que já
estão em curso. A pergunta correta não é “quanto custa ser sustentável”, mas “quanto
custa não ser”.
Esse debate ganha contornos ainda mais relevantes quando falamos de pequenos
negócios. Ao contrário do que se imagina, são eles que, muitas vezes, já praticam
sustentabilidade na essência. Relações próximas, cuidado com pessoas,
responsabilidade com o entorno e decisões mais ágeis fazem parte do cotidiano de
muitas micro e pequenas empresas, mesmo que isso não seja formalizado como ESG.
O desafio não é começar do zero, mas reconhecer, organizar e potencializar o que já
existe.
Além de reduzir riscos, a sustentabilidade abre oportunidades. Ela impulsiona
inovação, estimula novos modelos de negócio e fortalece cadeias produtivas mais
responsáveis. Economia circular, reaproveitamento de materiais, inclusão social e
desenvolvimento territorial deixam de ser conceitos abstratos e passam a ser
caminhos concretos de geração de valor.
Falar em Sustentabilidade 360° é falar de visão sistêmica e responsabilidade
estratégica. Não é sobre fazer tudo ao mesmo tempo, mas sobre entender que tudo
está conectado. Ambiental, social, econômico, cultural e governança não são caixas
separadas, são partes de um mesmo organismo.
A sustentabilidade que defendo não é idealizada nem distante da realidade
empresarial. Ela é prática, possível e necessária. Mais do que um conceito, é uma
jornada de gestão que torna os negócios mais eficientes, competitivos e preparados
para um mundo que já mudou. Ignorar isso não é uma escolha neutra. É, cada vez
mais, uma escolha de risco.

Kelly Roselaine Valadares
Analista de Competitividade Setorial – Sebrae RS




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